Nunca o
conheci mas herdei-lhe o hábito de escrever listas (raro numa família de
despistados), o gosto pela leitura e pela escrita e, sem saber como estas
coisas passam pela genética, o sentido de humor. Neste dia lembro-me sempre
dele e lamento ainda mais que não nos possamos ter cruzado. Gostava de poder
ler os seus textos, de lhe conhecer o jeito excêntrico, de ouvir as suas
opiniões. Não sei se gostaria que visse o país de agora porque talvez lhe destruísse os sonhos mas gostava imenso que soubesse como a minha mãe é tanto dele,
mesmo que ela lhe tenha dado o desgosto de não seguir as suas pisadas no
Direito.
É por causa dele que nunca deixo de ir votar. Porque fez a neta prometer que nunca iria abdicar desse direito. Defensor da justiça e da liberdade de expressão, era um homem de palavra e de palavras, que falava com os netos como se fossem gente grande mesmo quando ainda eram pequenos, os ensinou a dizer à PIDE que "é muito feio ser bufo" e que os fez perceber que a palavra de honra é um contrato que não precisa de qualquer papel. Foram várias as ocasiões em que se esquivou à censura num jogo de toca-e-foge com as autoridades, onde, segundo ele, lhes testava a inteligência. Apesar de tudo, foram também
muitas as vezes em que foi preso pelos seus ideais, por não ser indiferente à injustiça, por "não conseguir estar sossegado", lá diria a minha bisavó, adepta fervorosa do conformismo.
O 25 de
Abril vai ser sempre o aniversário do dia mais feliz na vida do meu bisavô. Da
sua esperança num futuro melhor, onde o Direito existe e os homens não são
presos pelo crime de ter uma opinião diferente. E é sempre o dia em que eu lamento não ter tido a oportunidade de lhe dizer o orgulho que é ser sua bisneta. É assim que a cada 25 de Abril relembro o meu próprio herói da liberdade. O seu legado, esse, vive 365 dias por ano. E em cada ida à urnas. E, no fundo, cada vez que aqui escrevo.
