sábado, 10 de setembro de 2016

What is your story?

Apesar de viver em Inglaterra, a verdade é que fora do trabalho estou muito mais vezes acompanhada por estrangeiros como eu do que por ingleses. Foi assim na Alemanha, foi assim na Holanda, mas só agora, na minha segunda era no Reino (Des)Unido é que percebi que esta coisa de ser expat (ou emigrante, na versão menos chique) é viver num espaço-tempo muito próprio. Na expat-land o tempo é infinito: é só clicar no 'pause' e podemos primeiro acabar esta formação, aceitar aquela promoção do outro lado do mundo ou viver uns tempos no país X porque sempre nos pareceu uma boa ideia. O que toda a gente se esquece é que quando voltamos a clicar no 'play' o mundo 'normal' avançou no calendário (e a nossa idade também...), a nossa família e os nossos amigos back home viveram sem nós e mesmo os amigos que estão numa bolha-expat diferente da nossa viveram noutro espaço-tempo. Independentemente de sermos melhores amigos, continua a ser preciso fazer a conversão do tempo que se viveu em cada bolha, tal e qual como se converteriam os anos em diferentes planetas, a diferença é apenas se isso é mais ou menos rápido. E é talvez por vivermos em bolhas que os expats são conhecidos, lá está, por expats, como se ser expat fosse uma espécie de dupla nacionalidade e precisasse de um nome específico. Estas reuniões de expats são muitas vezes vistas como outra forma de dizer 'amizade para encapotar a solidão' e na maior parte dos casos só posso concordar. Há grupos que se formam apenas e só porque se vive no mesmo sítio na mesma altura mas às vezes (one in a million chance, é certo) o que nos traz ao mesmo sítio na mesma altura pode ser em si mesmo uma afinidade considerável. Mais do que um emprego ou uma morada num país diferente, foi todo um conjunto de experiência e decisões até chegar aqui - não partilhamos apenas o facto de vivermos no mesmo sítio ao mesmo tempo, partilhamos a mesma história. E é por isso que que a pergunta "so, what is your story?" fez todo o sentido. E a minha é demasiado grande para este post.

5 comentários:

  1. Depois de 30 anos de experiência neste tema (cof cof cof) sinto que sao geralmente amizades somente para escapar a solidao, dai nao ter amigos cá hoje. Fugi de muitos expatriados divertidos, como eu, com as mesmas ideias, mas porque sabia que o laço seria apenas naquele momento. Quando voltarem para os seus paises - e muitos ja voltaram - vao deixar de contactar e nao teremos investido nas pessoas que ficaram. Acredito que seja fun ter amizades com expats para quem nao sabe, mas ja perdi dezenas de pessoas na minha vida e cansei. That is my story.

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    1. Concordo, dos vários países onde estive e dos muitos grupos por onde passei tenho hoje... hmm, 2 amigos (?) mesmo a sério. De resto, percebi que 'longe da vista, longe do coração' e também cansei de ser apenas amiga de Facebook. Apesar de poder parecer por este texto (quando o reli) que estou a dizer que os grupos de expats são mais do que apenas uma forma de não se estar sozinho, concordo contigo: estamos juntos apenas porque somos expats, senão aquele grupo de pessoas provavelmente não existiria. Se calhar preciso de editar o texto, mas o que queria dizer é que às vezes (e este "vezes" é one in a million), a história do que nos traz ali é que nos faz aproximar de facto de uma pessoa, não por sermos expats mas apesar disso.

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  2. No meu caso pessoal, a vida de expatriada deu-me a oportunidade de conhecer algumas pessoas com quem sinto muitas afinidades e com as quais mantenho contacto regular, mesmo que já tenham saído da Holanda. E, provavelmente, se não tivesse ou tivéssemos emigrado, nunca nos teríamos cruzado. Às vezes, por graça, até lhes perguntava ou pergunto: "Onde é que andaste estes anos todos?". Para mim, foi importante conhecer estas pessoas em particular, uma vez que continuam muito presentes e têm feito a diferença na minha vida. Mas também é verdade que me cruzei com pessoas que só estiveram no meu percurso (e eu no delas), de passagem.
    Quanto a deixar de vivenciar histórias com aqueles que ficaram em Portugal, devo dizer que, no meu caso pessoal, isso tem tido impacto em alguns casos. Há todo um crescimento interior que se tem processado e quando me deparo com certas situações, sinto-me longe da(s) pessoa(s) em questão. Continuamos a falar e tal, mas não é a mesma coisa. Refiro-me mais a questões de mentalidade e à incapacidade de romper com círculos viciosos, só para manter as aparências e falsas noções de segurança (e eu não me identifico com nada disto; aliás, nunca me identifiquei). Acredito mesmo que essa "falsa normalidade" (e normalidade aqui não é palavra minha, mas a que eu ouvi), um dia vai acabar por explodir na cara de quem se recusa a ver e a fazer alguma coisa por mudar(uma vez que há muita frustração interior que se tenta esconder/colocar debaixo do tapete). Também é triste verificar a inveja por "os outros" terem tido a coragem em mudar o jogo aos 37 anos, já lá vão quase 9 anos, e sem qualquer tipo de rede de apoio. Atenção que quando falo em mudar, não estou a dizer que isso tem de passar obrigatoriamente por emigrar, mas por ter a coragem de mudar o jogo, sobretudo quanto até há condições para isso.
    A vida de expatriada, do meu ponto de vista, acaba também por nos dar mais segurança/coragem/whatever para arriscar, abdicar, rasgar e começar novo. Ao vivenciar o preço (seja a aprendizagem de uma língua difícil, a adaptação a um clima muito quente ou muito frio, uma nova alimentação, um novo ambiente cultural e social, sobretudo, quando não se conhece ninguém inicialmente que nos possa apoiar e ajudar a ambientar, etc), acabamos por ter maior consciência das nossas forças intrínsecas e, em consequência, ficar mais autoconfiantes (sabendo do que somos capazes fora da zona de conforto).
    Não sei se me fiz entender...Estas coisas são tão pessoais. Para outras pessoas, a história já poderá ser outra, claro.

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    1. Percebi e partilho de algumas das tuas experiências. Curioso teres referido a coragem, que acho que é uma coisa que acaba por estar mais presente em pessoal que emigra e tem, lá está, a coragem de mudar e de se adaptar uma nova realidade. Quando há uns anos recebi uns amigos de Portugal dei conta como nem 24 horas tinham passado sem eles refilarem como o café era mau e outros 'mimimis' do género - isto é apenas um exemplo sem grande importância mas fez-me pensar como se calhar nem toda a gente foi talhada para fazer as malas e começar uma vida noutro sítio (e não há nada de errado com isso, atenção!). Também conheço gente que mais do que mudar ou procurar melhorar, 'fugiu' à realidade que conhecia e aí não sei se lhe chamaria coragem mas isso são outros 500.
      E numa coisa concordo em absoluto, estas coisas são sem dúvida bastante pessoais. Quando me perguntaram "what's your story?" lembrei-me logo desta cena do Grey's Anatomy e acho que somos todos muito mais do que "just a girl in a bar" e é quando se conhecem as histórias por detrás das pessoas que se descobrem aquelas que sobrevivem à vida expat ;)

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  3. Eu não teria escrito melhor. Todos os amigos que fiz ao longo destes 10 anos são/eram expats. Talvez com excepção de quando morei no Brasil, talvez por a lingua ser a mesma, e ainda assim dos que ficaram até hoje metade são expats. Disse eram expats porque é o tipo de amizade que vem e vai. Os que ficaram mesmo apesar da distância, ficaram precisamente porque tínhamos mais em comum do que simplesmente o facto de sermos expats.

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