terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher...em mundo de homens?

No Técnico tive professores que achavam que nós não sabíamos o nome das ferramentas ou dos materiais de construção apenas porque éramos raparigas ("as senhoras não sabem isto" diziam). Lembro-me como se fosse hoje do colega que assumiu que eu não sabia explicar um laboratório de microprocessores porque de certeza que tinha sido o rapaz do grupo a preparar a aula (a ironia é que dessa vez tinha sido eu a fazer o trabalho sozinha porque precisámos de dividir os projectos). E muitos outros exemplos que a memória fez o favor de me fazer esquecer dos detalhes. Eu sei que não se comparam a outros exemplos de "desigualdade" por esse mundo fora (ou noutros bem mais perto de nós) mas foi a primeira vez que senti que havia uma diferença. A coisa intensificava-se se fôssemos raparigas que por acaso sabiam conjugar as cores e se vestissem, vá, um bocadinho melhor. Depois esbateu-se, ou eu deixei de notar, agora já não sei qual é a verdade. E nunca desde que tenho o diploma me fizeram sentir que valho menos do que qualquer homem, ou descobri que ganho menos do que um para fazer o mesmo trabalho. Mas pode ser só ignorância minha, admito.
Acho uma parvoíce ter quotas para ter mais mulheres na ciência ou na engenharia ou seja onde for, como se fôssemos menos capazes e precisássemos que nos dessem lugares especiais. O que acho importante, e é isso que fazia em Inglaterra, é mostrar a miúdas que a ciência e a engenharia são para toda a gente, rapazes e raparigas. Não para que haja 50% de mulheres no ramo porque é preciso ser tudo igual e super distribuído (não temos todos direito à diferença?) mas para que haja a percentagem que homens e mulheres bem quiserem e não porque "é preciso que seja assim". Para que seja um não-assunto. É que na verdade, na altura em que escolhi ir para engenharia nunca me passou pela cabeça que aquilo fosse "coisa de homens" (por que haveria de ser?) e é isso que procuro promover no meio das miúdas, tirar-lhes esta ideia de que há coisas que não são para elas. Se depois disso, elas quiserem ir na mesma para Literatura ou Psicologia ou lá quais são os cursos que a sociedade diz serem "de mulher", por que raio haveriam de não o fazer? E é só no dia em que for um não-assunto o facto de uma miúda escolher ciências ou letras (entre muitos direitos, claro, mas mantemos o tópico do post), que será possível discutir o sentido o Dia da Mulher nesta Europa "civilizada".

8 comentários:

  1. Evoluímos muito mas ainda há muito caminho a percorrer. Não sei se algum dia chegaremos a ter uma sociedade com direitos e privilégios iguais para homens e mulheres mas ainda assim fico feliz com a ideia de estarmos cada vez mais perto. Beijinho

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    1. Sim, sem dúvida que evoluímos, mas quando me dizem que o dia da mulher já não faz sentido, eu não acho, acho que ainda há muito para percorrer. Beijinhos!

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  2. Tb me irrita a questão das quotas. Até parece que somos algumas parvinhas que não conseguem "chegar lá" por capacidades e mérito próprios...

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  3. Concordo a 100% e identifico-me bastante nas tuas palavras. Sendo eu também de Engenharia, houve muita gente que não percebeu que não há cursos "de homens" ou "de mulheres".
    Já na faculdade, foram poucos os professores que duvidaram das raparigas (em clara minoria no curso), mas talvez se deva ao facto de todas nós nos termos esforçado mais ao inicio para mostrar que eramos tão ou mais capazes que os rapazes...
    Pena o Mundo ainda não ser tão equalitário no que toca a este aspecto (e outros).
    Irrita-me tanto ver pessoas desprezarem a importância deste dia como se fosse um direito adquirido... Tanta gente batalhou para que houve menos desigualdade, e depois há especímes por aí que tudo o que querem fazer é regredir no tempo e aceitar "que somos menos que eles"... Enfim, cada qual com a sua! ;)

    Boa sorte pelas Alemanhas! ;)

    Beijinhos

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    1. Eu até acredito que os professores não duvidassem das capacidades, na verdade eu acho que eles até achavam que nós éramos melhores alunas porque a verdade é que se considerássemos os melhores alunos, era certo e sabido que estavam lá mulheres, a questão era as piadinhas de alguns "as senhoras não sabem estas coisas", o tom paternalista a explicar, como se os homens tivessem todos aprendido os nomes daquilo no infantário. O meu colega do exemplo, esse era só parvo :P
      O dia da Mulher como dia de descontos e presentes é coisa para me deixar sem paciência. Ao promovermos isso, só parecemos ainda "menos" que os homens, como se tivéssemos de ter um dia para nos lembrar que somos especiais...Para além de que acho uma falta de respeito pelas pessoas que lutaram pela igualdade de género!
      Obrigada, beijinhos!

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