segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ser emigrante - como começar

Perguntaram-me "como se faz" para ser emigrante, "como consegues", e eu achei que isso dava um post (ou um livro, mas esta segunda opção é capaz de demorar mais tempo). Acho ainda que há uma diferença entre o "como se faz" e o "como consegues", já que a primeira remete mais para o lado logístico da coisa e a segunda me parece a reformulação de "mas como raio andas tu sempre de um lado para o outro", e aí já entramos noutros domínios. Comecemos então por aí: viver fora não é o mesmo que ter umas férias maiores. Eu sei que nos parece sempre glamouroso ler blogs de pessoas que moram em NYC, Paris, Londres, ou noutra qualquer grande cidade do mundo (se é isso que esperam encontrar, esqueçam, nunca me mudei para viver numa cidade maior do que Lisboa...). Mas a vida deixa de ser turismo e compras para passar a incluir o pagamento de contas, a burocracia dos serviços, o atendimento noutra língua, e todas as chatices do dia a dia, mas agora num sítio onde somos a pessoa "de fora", onde não temos a família e onde muitas vezes não conhecemos ninguém. Portanto, eu diria que o primeiro passo é perceber a diferença entre ser turista e ser emigrante. Perceber que vamos ter de nos adaptar a novas formas de fazer as coisas e, para bem da nossa sanidade mental, não podemos estar sempre a pensar que seria diferente no país A, B ou C ou que o café é muito melhor em Portugal (aliás, percebi que os amigos que me visitaram em Londres em Abril nunca poderiam ser emigrantes, porque uma coisa é dizer mal do expresso do Pret a Manger, outra coisa é quase estar a contar os dias para voltar a casa e poder tomar um café melhor... não dá, a sério).
Agora, a logística da coisa (e isto é possivelmente uma visão muito básica e muito pessoal):

1- Encontrar emprego
Apesar de ir para o meu terceiro país e ter possivelmente níveis elevados de loucura, nunca me mudei "à maluca" para lado nenhum. Claro que há quem arrisque ir sem emprego garantido mas eu nessas loucuras não me meto e recomendo que procurem sempre emprego antes de se porem a caminho. Não costumo ver nenhum portal de emprego geral (uso um muito específico para o meu ramo) e procuro directamente nos sites das empresas. Outra opção é recorrer ao Linkedin, uma forma mais eficiente de ver várias empresas de uma vez.
Recomendo que tenham o certificado do curso em inglês, caso alguma empresa peça prova de habilitações (muitas nem sequer pedem, mas é sempre melhor prevenir), bem como todas as traduções de que possam vir a precisar.

2- Quebrar o ciclo casa - conta no banco - casa
Em muitos países precisam de ter conta no banco para terem casa e de ter casa para ter conta no banco (genial, hã?). Da minha experiência, o ciclo consegue ser quebrado no lado da casa, seja por pagarem adiantado ou por darem a garantia de rendimentos (através do contrato de trabalho), pelo que acaba por ser possível arranjar morada antes de abrir conta no banco (consegui fazê-lo na Holanda, em Inglaterra e agora na Alemanha).

3- Ter dinheiro para gastar nos primeiros meses
Talvez devesse colocá-lo em primeiro lugar porque emigrar é um investimento, pelo menos no início. Algumas empresas cobrem os custos de instalação mas pode acontecer que estes tenham um "tecto" mais baixo do que aquilo que vão realmente gastar. Se alugarem casa, é preciso pagar depósito e 1 ou 2 meses de renda, para além de um potencial pagamento à agência. Dos 3 países, Inglaterra foi o único onde não achei as fees um roubo descarado e, portanto, o único onde recomendo o recurso a uma agência (mas nunca aluguei casa em Londres). Claro que é mais fácil dizer do que fazer, até porque alugar um apartamento directamente ao senhorio pode ser uma missão impossível... Ah, e claro, sempre que usarem sites ingleses em países cuja língua não é o inglês estão a pagar preços muito mais elevados (tudo o que diga "expat", então, é quase como ir a uma loja e dizer que é "para um casamento", leva logo custo extra).

4- Perceber muito bem os gastos para além da renda
Existem rendas com e sem contas incluídas. Na Holanda decidi ter tudo incluído porque sinceramente não me quis chatear com isso e nem pensar ter de tratar de tudo em holandês. Já da minha experiência em Inglaterra, achei mais difícil encontrar casas onde esteja tudo incluído (não ser que aluguem um quarto) e por isso fiquei a conhecer o maravilhoso mundo do atendimento ao cliente por terras de Sua Majestade (por acaso não é assim tão mau, tirando o horário...). É preciso então contar com água, luz, gás, imposto municipal, internet e televisão. Em Inglaterra, para além de pagarem ao provider do serviço, é preciso pagar uma tv licence (julgo que umas 120 libras/ano, não tenho a certeza), mas obviamente que não é obrigatória se não tiverem serviço de tv (eu nunca tive). Há ainda questões como o seguro de saúde, importante em países como Holanda e Alemanha mas que não é tão necessário em Inglaterra (o NHS não é assim tão mau).
Ah, e uma nota para quem quiser ir para Londres (visto que o UK está tão na moda entre os portugueses): Londres é uma cidade caríssima. Mesmo. Pela vossa saúde vejam esses gastos com atenção. Conheço imensa gente que vive em Londres apenas "porque sim", quando podia fazer o mesmo e viver bem melhor fora da capital, onde não é preciso vender um rim para ter um apartamento. (E não digam que Luton é Londres: não está "dentro" da M25, não é Londres, é a minha filosofia. Senão vamos dizer que Aylesbury é Londres, Reading é Londres, Slough é Londres....inspira, Agnes, inspira).

E pronto, no fundo acho que são estes os 4 passos principais. Eu sei que isto soa muito simples, mas todas as minhas mudanças foram assim, simples e sem dramas (em geral, o mais difícil é mesmo arranjar emprego!). Claro que tenho saudades de Portugal e gosto muito do meu país mas tenho ainda muito para fazer "lá fora". Além disso, não quero que seja o medo a estar entre mim e nenhum "e se?".

3 comentários:

  1. Ser emigrante por vezes pode ser muito duro...

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    1. Nunca vivi a emigração como um drama, foi sempre uma opção e acho que isso faz toda a diferenca. Mas claro que depois é preciso enfrentar o lado mais duro dessa escolha, conheço quem não fosse capaz de ser emigrante sem dar em maluco por isso recomendo sempre a amigos que pensem muito bem antes de embarcar ;)

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