quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lamechices

Demorei um dia inteiro a assinar o contrato da casa. Olhei para ele várias vezes, hesitei, senti uma pontinha de saudade da minha casa nas Midlands, dos meus amigos e dos nossos jantares sempre no mesmo pub, para desespero do único vegetariano do grupo. Acho que até me senti um bocadinho traidora por estar a escrever o meu nome numa nova morada terminada em "Deutschland". De repente pareceu-me tudo muito mais real. E foi também por isso que achei que estava na altura de deixar de andar com os cartões do Sainsbury's, NHS, Nero, IKEA family... Tirei tudo, mas não deitei fora, que parte de mim acha que um dia vai voltar. A minha bolsinha dos cartões, essa, está mais vazia, e acho que eu também. Bah, odeio despedidas.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Dance, dance, dance... like you were 16

Voltei a encontrar a música da minha coreografia preferida e senti uma saudade imensa. Da confusão que se instalava entre as duas aulas numa sala demasiado pequena para tantas raparigas a trocar de sapatilhas ao mesmo tempo, dos infinitos "1, 2, 3, 4", dos exasperantes "vamos repetir" quando ainda só tinham passado uns 30 segundos desde o início da música, de passar a não conseguir ouvir as músicas que dançava de tantas vezes aturar o play-pause-play... como se estivesse a ouvir alguém a praticar piano e a empancar na mesma nota. Uma e outra vez. E outra vez. E outra vez.


Tenho sobretudo saudades dos ensaios gerais, os meus dias preferidos. O dia inteiro com os teatros só para nós, a ver as coreografias das outras turmas, estudar entradas e saídas do palco, preparar o guarda-roupa para a confusão das trocas durante o espectáculo e comer sandes à socapa nos bastidores. Voltei a encontrar a música e não a consigo ouvir sem me lembrar de todas as entradas em palco, das transições, da luz dos holofotes em cheio nos olhos (depois esqueço-me da lista de compras quando vou ao supermercado, claro). E estão a ver o primeiro "lalala"? Era a minha deixa. Acho que hoje vou ouvir em repeat. Porque há dias em que me apetece voltar a ter a minha saia à-la-anos-50 e sentir a felicidade suprema que era estar no palco.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Ainda nem me mudei oficialmente

E já estou cansada dos alemães. É tudo uma complicação, tudo cheio de papéis e procedimentos e regras sem sentido e "preencha isto" (que "isto"? mas eu não sei o que é metade destes tópicos!) e respostas atabalhoadas a emails com pedidos de informação (geralmente sem esclarecerem nada). Sinto-me como os miúdos que mudam de escola e querem os colegas antigos... eu também quero os ingleses de volta. Onde as pessoas respondem ao que se pergunta e nos tratam com simpatia. Será que viver "na Europa" já não é para mim? *gasp*

domingo, 15 de novembro de 2015

Ai querias um emprego onde andasses a viajar?


Então aí tens, vem aí uma tour por Inglaterra (oh, the irony!), para o ano temos o Luxemburgo e havemos de ir umas quantas vezes a Bruxelas, isto só para começar (não há uns destinos melhorzinhos, não?). E para não te armares em esperta, és tu que marcas os teus voos, Agnes Maria, toca a conciliar horários de reuniões e comboios e escalas. E marcações de última hora, para passares a ser uma pessoa mais calma (ou não).


Careful the wish you make
Wishes are children
Careful the path they take
Wishes come true, not free

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A sério, pessoas?

Ando horrorizada com os comentários que leio no Facebook, tanto de um lado como do outro. Goste-se ou não do Costa e dos seus novos amigos, a verdade é que é legítimo o que eles estão a fazer: a nossa democracia é parlamentar e nas eleições escolhem-se deputados e não um governo. Sim, a PaF teve mais votos mas sozinha não consegue ter maioria no parlamento pelo que tem de se sujeitar caso todos os outros se entendam. Por outro lado, choca-me a alegria e o entusiasmo com que se compara os eventos de hoje a uma bomba e de como se chama fascista a toda e qualquer pessoa que não concorde com "a esquerda", como agora se diz. E as opiniões inflamadas de comentadores políticos? Começo a achar que os programas de futebol são muito mais civilizados do que esta discussão.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ser emigrante - como começar

Perguntaram-me "como se faz" para ser emigrante, "como consegues", e eu achei que isso dava um post (ou um livro, mas esta segunda opção é capaz de demorar mais tempo). Acho ainda que há uma diferença entre o "como se faz" e o "como consegues", já que a primeira remete mais para o lado logístico da coisa e a segunda me parece a reformulação de "mas como raio andas tu sempre de um lado para o outro", e aí já entramos noutros domínios. Comecemos então por aí: viver fora não é o mesmo que ter umas férias maiores. Eu sei que nos parece sempre glamouroso ler blogs de pessoas que moram em NYC, Paris, Londres, ou noutra qualquer grande cidade do mundo (se é isso que esperam encontrar, esqueçam, nunca me mudei para viver numa cidade maior do que Lisboa...). Mas a vida deixa de ser turismo e compras para passar a incluir o pagamento de contas, a burocracia dos serviços, o atendimento noutra língua, e todas as chatices do dia a dia, mas agora num sítio onde somos a pessoa "de fora", onde não temos a família e onde muitas vezes não conhecemos ninguém. Portanto, eu diria que o primeiro passo é perceber a diferença entre ser turista e ser emigrante. Perceber que vamos ter de nos adaptar a novas formas de fazer as coisas e, para bem da nossa sanidade mental, não podemos estar sempre a pensar que seria diferente no país A, B ou C ou que o café é muito melhor em Portugal (aliás, percebi que os amigos que me visitaram em Londres em Abril nunca poderiam ser emigrantes, porque uma coisa é dizer mal do expresso do Pret a Manger, outra coisa é quase estar a contar os dias para voltar a casa e poder tomar um café melhor... não dá, a sério).
Agora, a logística da coisa (e isto é possivelmente uma visão muito básica e muito pessoal):

1- Encontrar emprego
Apesar de ir para o meu terceiro país e ter possivelmente níveis elevados de loucura, nunca me mudei "à maluca" para lado nenhum. Claro que há quem arrisque ir sem emprego garantido mas eu nessas loucuras não me meto e recomendo que procurem sempre emprego antes de se porem a caminho. Não costumo ver nenhum portal de emprego geral (uso um muito específico para o meu ramo) e procuro directamente nos sites das empresas. Outra opção é recorrer ao Linkedin, uma forma mais eficiente de ver várias empresas de uma vez.
Recomendo que tenham o certificado do curso em inglês, caso alguma empresa peça prova de habilitações (muitas nem sequer pedem, mas é sempre melhor prevenir), bem como todas as traduções de que possam vir a precisar.

2- Quebrar o ciclo casa - conta no banco - casa
Em muitos países precisam de ter conta no banco para terem casa e de ter casa para ter conta no banco (genial, hã?). Da minha experiência, o ciclo consegue ser quebrado no lado da casa, seja por pagarem adiantado ou por darem a garantia de rendimentos (através do contrato de trabalho), pelo que acaba por ser possível arranjar morada antes de abrir conta no banco (consegui fazê-lo na Holanda, em Inglaterra e agora na Alemanha).

3- Ter dinheiro para gastar nos primeiros meses
Talvez devesse colocá-lo em primeiro lugar porque emigrar é um investimento, pelo menos no início. Algumas empresas cobrem os custos de instalação mas pode acontecer que estes tenham um "tecto" mais baixo do que aquilo que vão realmente gastar. Se alugarem casa, é preciso pagar depósito e 1 ou 2 meses de renda, para além de um potencial pagamento à agência. Dos 3 países, Inglaterra foi o único onde não achei as fees um roubo descarado e, portanto, o único onde recomendo o recurso a uma agência (mas nunca aluguei casa em Londres). Claro que é mais fácil dizer do que fazer, até porque alugar um apartamento directamente ao senhorio pode ser uma missão impossível... Ah, e claro, sempre que usarem sites ingleses em países cuja língua não é o inglês estão a pagar preços muito mais elevados (tudo o que diga "expat", então, é quase como ir a uma loja e dizer que é "para um casamento", leva logo custo extra).

4- Perceber muito bem os gastos para além da renda
Existem rendas com e sem contas incluídas. Na Holanda decidi ter tudo incluído porque sinceramente não me quis chatear com isso e nem pensar ter de tratar de tudo em holandês. Já da minha experiência em Inglaterra, achei mais difícil encontrar casas onde esteja tudo incluído (não ser que aluguem um quarto) e por isso fiquei a conhecer o maravilhoso mundo do atendimento ao cliente por terras de Sua Majestade (por acaso não é assim tão mau, tirando o horário...). É preciso então contar com água, luz, gás, imposto municipal, internet e televisão. Em Inglaterra, para além de pagarem ao provider do serviço, é preciso pagar uma tv licence (julgo que umas 120 libras/ano, não tenho a certeza), mas obviamente que não é obrigatória se não tiverem serviço de tv (eu nunca tive). Há ainda questões como o seguro de saúde, importante em países como Holanda e Alemanha mas que não é tão necessário em Inglaterra (o NHS não é assim tão mau).
Ah, e uma nota para quem quiser ir para Londres (visto que o UK está tão na moda entre os portugueses): Londres é uma cidade caríssima. Mesmo. Pela vossa saúde vejam esses gastos com atenção. Conheço imensa gente que vive em Londres apenas "porque sim", quando podia fazer o mesmo e viver bem melhor fora da capital, onde não é preciso vender um rim para ter um apartamento. (E não digam que Luton é Londres: não está "dentro" da M25, não é Londres, é a minha filosofia. Senão vamos dizer que Aylesbury é Londres, Reading é Londres, Slough é Londres....inspira, Agnes, inspira).

E pronto, no fundo acho que são estes os 4 passos principais. Eu sei que isto soa muito simples, mas todas as minhas mudanças foram assim, simples e sem dramas (em geral, o mais difícil é mesmo arranjar emprego!). Claro que tenho saudades de Portugal e gosto muito do meu país mas tenho ainda muito para fazer "lá fora". Além disso, não quero que seja o medo a estar entre mim e nenhum "e se?".

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Adeus, UK

Vou emigrar outra vez. Novos desafios, um novo país (Agnes, a coleccionar países desde 2011), uma vida nova, e estou aqui cheia de pena que o meu tempo em Inglaterra tenha chegado ao fim. Mesmo que nunca me tenhas dado o passaporte, a verdade é que vou sair do país que já sinto como meu (será que noutra vida nasci aqui?) e, ao contrário do entusiasmo que senti ao sair de Portugal (e ia para a Holanda, vê lá tu bem), acho que a expressão "my heart sinks" é a que melhor descreve esta sensação de ter um bilhete só de ida a partir da ilha. Não quero ser melodramática, UK, eu sei que tu continuas aí desse lado do canal e que me vais receber como um dos teus desde que "a Europa" não me estrague o sotaque (prometo, claro, fazer o teu ar superior sempre que alguém ouse ler o "A" como se fosse um "É"). Mas é que eu estava a afeiçoar-me a ti, sabes? E se por acaso encontrar um grupo de expats é possível que me junte a eles para usarmos orgulhosamente as nossas Christmas jumpers, irmos ao pub comer sausages and mash e afogarmos as mágoas numa chávena de chá (shhh).
Obrigada por estes 2 anos (e olha que nem todos os países sobreviveriam a tantas memórias, considera-te um privilegiado). Deste-me a minha Victorian brick house com direito a janelas em semicírculo na sala e quero dizer-te que o meu eu de 12 anos ficou bastante feliz. É certo que me faltou a morada em Londres (com vista para o Tamisa, hein? tu tira notas!) mas nunca se sabe o que o script da vida reserva para o próximo acto. Por enquanto, é temporário, mas mesmo que fosse mais definitivo sabe que eu continuarei a alimentar o meu lado britânico. Ser emigrante de mais um país até pode significar ter mais um sítio do qual sentir saudade mas também me dá mais um sítio ao qual chamar casa.
Anda, não fiquemos tristes, I'll put the kettle on.


PS- Desculpa estar a trocar-te pela Alemanha, eu sei que vocês tiveram os vossos desentendimentos, mas hey, pelo menos não é a França (bonus points pela piadinha com franceses?).

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A walk down memory lane


Na rua de São Marçal é sempre sábado e estamos no outono mesmo quando lá passo em pleno Junho. Não que faça sentido, até porque as aulas duravam todo o ano, mas ali sinto-me sempre em Setembro, com o cheiro a novo dos dossiers de plástico. É como se a rua de São Marçal conseguisse trazer o sabor das torradas da cafetaria, o rebuliço do início dos intervalos e a voz do senhor da entrada que perguntava sempre "tem cartão?".


Acho que foi por isso que escolhi este caminho até à praça das Flores, gosto destes passeios pela memória. O café no Copenhagen Coffee Lab, esse, não achei nada de especial, embora o espaço seja giríssimo.



Além disso, eu pude voltar a encontrar o André, a Ana, a Sara e a Inês, mesmo que tenha sido apenas no número 174 da memory lane que é a Rua de São Marçal.