quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Nómada

A primeira vez que viajei sem os meus pais ou qualquer outra pessoa da minha família tinha 14 anos. Ainda não sei como eles alinharam na brincadeira mas com 14 anos e 1 mês dei por mim no aeroporto pronta para o campo de férias em Inglaterra num grupo onde não conhecia ninguém. Acho que foi nessa altura que descobri em mim esta minha alma de nómada, porque nem mesmo nessa fase amigo-dependente que é a adolescência eu fiz questão de ir atrelada a alguém. Ouvi relatos de quem preferia ter ficado em Portugal com os amigos e não percebia como raio se podia não querer partir por algumas semanas e viajar em vez de ficar estendida ao sol durante todo o dia. As férias eram tão grandes que davam para tudo, achava eu. Apesar de viajarmos em grupo, davam-nos liberdade para estarmos à nossa vontade em sítios como Londres, apenas com lugar e hora para o regresso. Foram tardes de compras e análises do mapa, objecto que as minhas amigas diziam "fica tu com ele, que nunca te perdes" (ainda hoje sou sempre a pessoa-do-mapa em todas as viagens que faço).  Mas foram também horas em que decidimos visitar museus sem a obrigação de "coisas da escola", ou as livrarias mais antigas, e comprar postais para escrever aos amigos. (Vêem como a nossa geração não está tão perdida assim? haa.) Era nossa responsabilidade apanhar o autocarro certo para chegar às aulas a horas (foram muitos os recordes que batemos para apanharmos o 2, com o packed lunch numa mão e a tralha na outra mão). Tivemos que descobrir como coordenar os banhos de tanta gente para tão poucas casas de banho (nunca estabelecemos um horário mas as coisas encaixaram milagrosamente), ou aprender a chegar cedo se não queríamos ficar com as piores sandes de almoço (e a gostar de pepino nas sandes, que remédio). Como em todos os campos de férias criou-se uma camaradagem especial, onde se trocam sandes, se preparam bolos de aniversário e festas-surpresa com materiais improvisados, e se senta, em grupos de 4, em cima de malas alheias para elas fecharem. Houve até lágrimas à chegada à Lisboa, a estranheza de uma casa sossegada quando se tinha vivido como uma grande família espalhada por 3 andares, a certeza de que haveríamos de fazer uma reunion algures no tempo (e que ainda planeamos).
Gostei tanto que voltei e secretamente invejava quem já tinha ido a todos os destinos dos campos. Ainda hoje falo com amigos que fiz nessa altura e é engraçado ver como tantos deles são ainda mais nómadas do que eu. Macau, Brasil, Coreia, Escócia, Noruega, estamos um pouco por todo o lado. Nunca tinha pensado nisso, mas é possível que tenha tudo começado em 2001, quando fui nómada pela primeira vez.

6 comentários:

  1. Tinha escrito um comentário a contar que a minha primeira viagem sozinha (apenas com uma colega de escola) também foi para um campo de férias de línguas em Inglaterra. E que quando nos largaram sozinhos em Londres, Brighton ou onde quer que fossem as visitas a minha mae quase tinha um treco, ai minha rica filha... ahahah, já eu fiquei viciada, como se pode notar!

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  2. Não me digas que foste na EF? :P Seria um mundo mesmo pequeno, ahah.

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  3. Eu não me lembro como se chamava a escola nem a organização. Sei que ficávamos alojados tipo num campus universitário nos arredores de Londres. De manha havia aulas e a tarde passeios ou actividades. Fomos várias vezes a Londres e um sábado inteiro a Brighton! Penso que foi no verão de 2003 :)

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    1. Ah, nunca fiquei mesmo em Londres, mas o esquema era parecido, sim (e até fui em 2003!).

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  4. Identifiquei-me muito com este post... também tenho "alma de nómada". Mas infelizmente para mim sou uma nómada sem sentido de orientação e por isso nunca serei a "pessoa do mapa" da viagens hehe.

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    1. Hehe, andar sem mapa também é bom (eu é que sou um bocadinho control freak ahah).

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