sábado, 27 de junho de 2015

Uma casa de tijolo

A primeira vez que vim a Inglaterra devia ter os meus 11 ou 12 anos e desde então poucos foram os anos em que falhei uma visita à ilha. Sempre achei que podia ser daqui e a minha mudança veio confirmar isso mesmo. Com isto não quero dizer que este seja o país perfeito (longe, muito longe disso!) mas depois de ter estado 2 anos na Holanda atravessar o canal deu-me a sensação de estar finalmente em casa e isso tem que significar alguma coisa. Talvez a língua ajude bastante neste sentimento de pertença, não digo que não, mas eu acho que é mais, muito mais do que isso. É este jeito de gostar do humor britânico e até daquela altivez de antigo império, que se carrega como quem leva sempre um relógio de bolso e um chapéu alto invisível mesmo que se ande de chinelos e calções. É a small talk no supermercado, nos correios, na paragem de autocarro, com simpatia mas sem perder o sentido muito particular do que é ou deixa de ser "próprio". É o senhor que vende revistas e que me pergunta sempre como estou e deseja um bom dia quando passo, mesmo que nunca lhe tenha comprado qualquer coisa. São os charity events e as vendas de bolos na biblioteca do bairro, as corridas no parque ao sábado de manhã e o sem número de eventos organizados por voluntários, que se há coisa que abunda por aqui é o espírito comunitário. São os torneios de futebol e cricket no relvado do colégio e os miúdos de uniforme à saída da escola primária mais querida de sempre. É a obsessão com a família real e as roupas da Kate ou a última fotografia do George. São os pubs e os pub quizzes, as sausages and mash, as salt and vinegar chips, a shepard's pie, as jacket potatoes ou o Sunday roast. É o Natal começar em Outubro. São os constantes weather reports no facebook da BBC (com piadas!). É este jeito de viver a vida, tão próprio, tão difícil de descrever, que me faz sentir em casa a caminho dos 2 anos de estadia nesta ilha junto à Europa. 
Perguntam-me muitas vezes se os ingleses não são desagradáveis para os estrangeiros que cá moram mas a verdade é que não tenho nada a apontar, sempre fui bem recebida em todo o lado, desde a aldeia mais pequena até à capital. Mas não digo que não ajude conseguir passar por "um deles" até à hora de dizer o meu apelido ou mostrar o meu passaporte. É possível que o sotaque britânico e a pele branca ajudem nesta minha imagem positiva do país, assim como a minha profissão, não digo que não. Não vejam este relato como a descrição do país perfeito, que não o é.

Hoje dei por mim a pensar como com 11 ou 12 anos o meu sonho era morar em Londres numa casa de tijolo com as janelas dispostas em jeito de semi-círculo. E em como tive quase sempre o privilégio de realizar até os sonhos mais parvos, como este. Porque hoje moro numa casa dessas. Não é em Londres, mas é em tijolo e tem as janelas em semi-círculo. É engraçado como as coisas mais simples podem significar tanto.


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