sábado, 25 de abril de 2015

O meu 25 de Abril

Nunca o conheci mas herdei-lhe o hábito de escrever listas (raro numa família de despistados), o gosto pela leitura e pela escrita e, sem saber como estas coisas passam pela genética, o sentido de humor. Neste dia lembro-me sempre dele e lamento ainda mais que não nos possamos ter cruzado. Gostava de poder ler os seus textos, de lhe conhecer o jeito excêntrico, de ouvir as suas opiniões. Não sei se gostaria que visse o país de agora porque talvez lhe destruísse os sonhos mas gostava imenso que soubesse como a minha mãe é tanto dele, mesmo que ela lhe tenha dado o desgosto de não seguir as suas pisadas no Direito.
É por causa dele que nunca deixo de ir votar. Porque fez a neta prometer que nunca iria abdicar desse direito. Defensor da justiça e da liberdade de expressão, era um homem de palavra e de palavras, que falava com os netos como se fossem gente grande mesmo quando ainda eram pequenos, os ensinou a dizer à PIDE que "é muito feio ser bufo" e que os fez perceber que a palavra de honra é um contrato que não precisa de qualquer papel. Foram várias as ocasiões em que se esquivou à censura num jogo de toca-e-foge com as autoridades, onde, segundo ele, lhes testava a inteligência. Apesar de tudo, foram também muitas as vezes em que foi preso pelos seus ideais, por não ser indiferente à injustiça, por "não conseguir estar sossegado", lá diria a minha bisavó, adepta fervorosa do conformismo.
O 25 de Abril vai ser sempre o aniversário do dia mais feliz na vida do meu bisavô. Da sua esperança num futuro melhor, onde o Direito existe e os homens não são presos pelo crime de ter uma opinião diferente. E é sempre o dia em que eu lamento não ter tido a oportunidade de lhe dizer o orgulho que é ser sua bisneta. É assim que a cada 25 de Abril relembro o meu próprio herói da liberdade. O seu legado, esse, vive 365 dias por ano. E em cada ida à urnas. E, no fundo, cada vez que aqui escrevo.

3 comentários:

  1. Que texto bonito. Parabéns! Às vezes tenho medo que a nossa geração não dê valor ao que aconteceu, por ignorância talvez, o teu texto deu me um bocadinho mais de esperança.

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  2. Acho que muitos acham que esta é uma realidade distante e que actos como ir votar não interessam para nada porque "são todos iguais". Não sei se é ignorância, se é falta de alguma ligação "pessoal" à causa, mas dá-me pena. E quando ouço o tão típico "o que isto é precisa é de outro Salazar" dá-me vontade de desatar à chapada...

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