segunda-feira, 27 de abril de 2015

ciclos

Acho piada ver os novos emigrantes na Holanda e as suas actualizações no Facebook. As mesmas fotos dos campos de tulipas, do entusiasmo no King's Day (tenho que pensar duas vezes porque me sai sempre Queen's Day), os planos da bicicleta e o orgulho nos seus novos acessórios, os canais e as voltas de barco quando está sol. Uma pessoa saiu da Holanda e a vida continua igual, especialmente na bolha expat onde vivi, e é com alguma ternura (se é que isso faz sentido) que vejo o ciclo repetir-se. Se tenho saudades? Honestamente, não. Ou melhor, tenho saudades mas não significa que quisesse substituir o passado pelo que tenho hoje. Gosto mais da vida aqui na ilha, mesmo que a Holanda seja mais bonita, com as flores e os mercados e as casinhas de tijolo com vista para o canal. Tenho, contudo, saudades das pessoas e das equipas onde trabalhei e que hoje já não são as mesmas porque, lá está, a bolha expat é mesmo assim. Tenho saudades dos jantares internacionais e de coisas simples como os barbecues no jardim quando a meteorologia dizia que vinha aí um fim de semana de sol. Tenho saudades da fitinha que segurava o cartão magnético do meu emprego e do orgulho que sempre tive na minha instituição de sonho, mesmo que nem sempre tenha gostado do trabalho que lá fazia. E apesar de ter a casa (e parte da alma) em Inglaterra, percebi que tenho a "minha equipa" na Holanda. I'm one of them. E talvez um dia encontre outra equipa, outra "minha equipa", ou talvez a "minha equipa" seja sempre esta porque nunca nos esquecemos de quem primeiro apostou a sério em nós. Who knows?

sábado, 25 de abril de 2015

O meu 25 de Abril

Nunca o conheci mas herdei-lhe o hábito de escrever listas (raro numa família de despistados), o gosto pela leitura e pela escrita e, sem saber como estas coisas passam pela genética, o sentido de humor. Neste dia lembro-me sempre dele e lamento ainda mais que não nos possamos ter cruzado. Gostava de poder ler os seus textos, de lhe conhecer o jeito excêntrico, de ouvir as suas opiniões. Não sei se gostaria que visse o país de agora porque talvez lhe destruísse os sonhos mas gostava imenso que soubesse como a minha mãe é tanto dele, mesmo que ela lhe tenha dado o desgosto de não seguir as suas pisadas no Direito.
É por causa dele que nunca deixo de ir votar. Porque fez a neta prometer que nunca iria abdicar desse direito. Defensor da justiça e da liberdade de expressão, era um homem de palavra e de palavras, que falava com os netos como se fossem gente grande mesmo quando ainda eram pequenos, os ensinou a dizer à PIDE que "é muito feio ser bufo" e que os fez perceber que a palavra de honra é um contrato que não precisa de qualquer papel. Foram várias as ocasiões em que se esquivou à censura num jogo de toca-e-foge com as autoridades, onde, segundo ele, lhes testava a inteligência. Apesar de tudo, foram também muitas as vezes em que foi preso pelos seus ideais, por não ser indiferente à injustiça, por "não conseguir estar sossegado", lá diria a minha bisavó, adepta fervorosa do conformismo.
O 25 de Abril vai ser sempre o aniversário do dia mais feliz na vida do meu bisavô. Da sua esperança num futuro melhor, onde o Direito existe e os homens não são presos pelo crime de ter uma opinião diferente. E é sempre o dia em que eu lamento não ter tido a oportunidade de lhe dizer o orgulho que é ser sua bisneta. É assim que a cada 25 de Abril relembro o meu próprio herói da liberdade. O seu legado, esse, vive 365 dias por ano. E em cada ida à urnas. E, no fundo, cada vez que aqui escrevo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Adoro

Adoro receber encomendas "de casa". A minha mãe consegue enfiar as coisas mais random numa caixa dos CTT, desde meias (!), a embalagens do Celeiro a amostras de creme para "veres se gostas". Todo um mundo de coisas, vários bocadinhos de casa. Recebi até 2 calças novas depois de me queixar de que as que tinha por cá me estavam a ficar apertadas (é o drama, minha gente! o horror!) e ainda tive direito a uma parka de primavera porque os meus casacos de inverno começam a ser quentes para as tardes inglesas. A minha mãe é um espectáculo, pessoas.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Os acasos desta vida

Há males que vêm por bem. Essa expressão tão batida e que sempre me soou a prémio de consolação. Até hoje. Não sei se isto é recompensa divina ou um "toma lá, agora vamos ver o que fazes com isto". Mas é seguramente um turning point.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Não há disto em Londres

Viver "no Norte" é dizer obrigado quando se sai do autocarro. É ser quase sempre recebido na caixa do supermercado com um "hello darling, how are you today?". É ter direito a um "thank you, love", sejam vocês homens, mulheres, meninos ou meninas. É poder mandar uma piada à empregada do café, enquanto se espera pelo latte, e estar seguro que ela vai entrar na conversa. É ter um perfeito desconhecido a oferecer-se para trocar uma nota de 5 libras para que uma pessoa sem passe possa comprar bilhete com os trocos. É correr sempre o risco de ser envolvido numa conversa sobre o tempo ou os transportes enquanto se espera o autocarro. Ou ter alguém a segurar-nos o saco enquanto lá pomos as coisas que nos caíram da mão. Esta Inglaterra mais a norte tem algumas das características do espírito de bairro, de cidades mais pequenas. Tem os seus defeitos, como todos os sítios, as suas zonas menos boas, as suas pessoas mais estranhas, mas tem sempre gestos que reforçam o lado mais humano desta ilha.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Há sempre música entre nós

Se a minha infância tivesse uma banda sonora esta música estaria lá, cantada pelo meu pai.


Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade


quinta-feira, 9 de abril de 2015

É a loucura

4 dias de sol seguidos. Hoje estavam 10 graus às 9 da manhã e 16 a meio da tarde. Andei sem casaco. Aliás, andei de tshirt. É assim, meus amigos, que se vê como estou a um passo do internamento. Mas eu juro que estava calor.

Nós e eles

Se há coisa que não entendo é o espírito do "nós" versus "eles" em relação aos estrangeiros. Ou o racismo. Ou qualquer outra forma de discriminação. Talvez porque eu própria seja emigrante. Talvez porque tenha sempre trabalhado com pessoas de todo o mundo e isso tenha sido o meu "normal". Ou talvez por ontem ter tido uma reunião com um representante de cada país da Europa que me fez sentir numa espécie de Eurovisão e onde me apeteceu dizer "e os 12 pontos são para a Hungria!". É certo que as crises trazem sempre o bicho papão da emigração que rouba os recursos dos locais para dar aos estrangeiros, qual Robin Hood, mas há que ter um bocado de senso comum (e, já agora, 2 dedinhos de testa). I'm talking to you, Britain. Vocês precisam de esquecer essa coisa de que as pessoas só vêm para cá por causa do vosso sistema nacional de saúde. E dos benefits. Vamos ter calma, que vocês não são a última coca-cola do deserto. Há vida fora da ilha. E isto aplica-se a tantos outros sítios, com a superioridade das raças, das nacionalidades, essa coisa que francamente me enoja e me faz lembrar o nazismo e a sua busca pelo perfeito ariano.
De todos os "nós versus eles", só posso ter pena. Porque nunca se devem ter sentado a uma mesa de almoço com pessoas de todo o mundo e percebido como somos mais parecidos do que achamos. Ou sentir a generosidade e a amizade em tantas línguas e tantas formas que não cabem na fronteira do vosso país. Porque se assim fosse, não iriam aceitar propostas que queiram rejeitar pessoas por terem nascido na Índia, ou no Paquistão, ou na Roménia, ou noutro qualquer sítio. Porque elas deixariam de ser apenas mais um ponto no mapa. Aliás, cada vez mais acho que quanto mais mundo se conhece menos se consegue discriminar. Mas se calhar sou eu que sou idealista.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

When in Britain


(E acho que iniciei uma perigosa colecção de canecas. Perigosa porque já me estou a imaginar a empacotar canecas quando mudar de casa, que vida de nómada é assim, mede-se as coisas por caixas.)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Páscoa em Budapeste

Acho que tenho um problema: toda a Europa começa a parecer-se-me um grande e único país, especialmente ali ao centro. Tinham-me dito tão bem de Budapeste que eu esperava uma cidade linda, qualquer coisa entre a cidade encantada e o cenário de um filme, mas afinal é um bocadinho mais do mesmo. É uma mistura de Praga com Berlim, e mais uma cidade desse país que é a Europa Central. Sim, é um destino engraçado, excelente para passar um fim de semana prolongado, que se faz muito bem a pé e onde se tiram boas fotografias, mas não me trouxe o "uau" de que estava à espera. Tem recantos lindos e zonas decadentes logo a seguir, nota-se a herança gloriosa do império Austro-Húngaro, mas achei que as cicatrizes das guerras ainda se fazem sentir. Tem o seu encanto junto ao rio mas o charme de Lisboa põe a cidade a um canto (aliás, tenho chegado à conclusão que quanto mais viajo mais gosto da minha cidade). Desculpa, Budapeste, it's not you, it's me.


Recomendo vivamente a visita ao Parlamento e sugiro que comprem os bilhetes online para evitarem as filas (comprando online, é só imprimir, nem sequer é preciso ir levantá-los na bilheteira). O edifício é lindo por fora e por dentro, e apesar de a visita ser relativamente curta vale imenso a pena!




A Igreja de Santo Estêvão é linda. A entrada não é paga, mas é sugerida uma doação para entrar.





A icónica Chain Bridge, paragem (e travessia!) obrigatória.



O Bastião do Pescador é pago se quiserem percorrer a muralha completa. Nós pagámos no espírito de "não voltamos cá, why not?" mas se quiserem evitar essa despesa extra podem ir um bocadinho mais à frente para uma vista semelhante.

 



Gostei ainda de visitar o Mercado e deu um excelente abrigo para a chuva/neve com que Budapeste me brindou no primeiro dia!




Junto à Praça dos Heróis encontrámos um mercado com comida e produtos tradicionais, cheio de turistas e locais e que contrastava com o sossego das ruas no Domingo de Páscoa.




Umas últimas notas para dizer que

a) cidade se faz bem a pé e não fiquei propriamente no centro (estava junto à Casa do Terror, antigo edifício das SS), pelo que acreditem que o uso de transportes públicos é perfeitamente dispensável.

b) recomendo o Café Pierrot, no bairro do Castelo. Comida excelente e empregados super simpáticos, se quiserem descansar do turismo e comer num ambiente sossegado, fica a dica!


Agora é tempo de planear a próxima viagem!