domingo, 22 de março de 2015

Bolo de memórias

A minha bisavó paterna foi governanta numa casa senhorial durante a juventude. Lembro-me de ser pequena e achar super exótico, quase ao nível de uma qualquer história de encantar que ela me contava todas as tardes. A minha bisavó foi a minha inseparável companheira de brincadeiras até eu entrar na escola primária e, apesar da idade, deitava-se no chão e fazia comigo a ginástica que passava na Rua Sésamo. Tinha a paciência que ninguém tinha para criar grandes comboios de cadeiras cor de rosa que ocupavam todo o corredor de casa e onde depois sentávamos os bonecos. E desmanchar tudo a seguir, para brincarmos a outra coisa qualquer. Porque a minha bisavó sabia brincar a sério e não como um adulto que está só a entreter uma criança. A minha bisavó foi a minha verdadeira avó de entre as avós. Sim, a minha avó fazia as melhores batatas fritas do mundo (mesmo) e tricotava-me as camisolas de lã mas a minha bisavó é que tinha tempo, é que me fazia as vontades e que me dava sempre mais uma bolacha Maria e que fez pacientemente o vestido da minha primeira comunhão, perfeito no corte e na costura (coisa que eu quero muito encontrar e, quem sabe, guardar para uma filha minha). Quando eu era pequena, a minha avó paterna ainda trabalhava, pelo que "ir para casa da avó" durante a semana significava passar o dia com a minha bisavó e a empregada, que me deixavam sempre lamber as colheres e as taças dos bolos e com quem eu fazia rissóis, empoleirada em cima de um banco (não digam à minha mãe). Lembro-me de ver a Filipa Vacondeus na televisão, enquanto a tábua de passar era a minha casinha de brincar, com os lençóis a fazer de paredes. E o sótão era um sítio de difícil acesso mas pelo qual eu tinha um fascínio inexplicável, com todas as caixas e recordações que por lá se acumulavam.
Hoje lembrei-me da minha bisavó enquanto fazia um bolo. Apesar de já não ter de pedir autorização a ninguém, sinto sempre que estou a cometer um pequeno delito quando lambo a colher, um delito que me era consentido naquelas tardes em casa da minha avó. Perdi a minha bisavó com os meus 8 ou 9 anos e tenho pena que ela tenha faltado a tantos momentos da minha vida. Tenho a certeza que teria o maior orgulho na pessoa que me tornei e um sem fim de histórias que nunca me chegou a contar. Para além disso, eu gostava muito que ela provasse o meu bolo de chocolate.

9 comentários:

  1. Agnes Maria, este post deixou-me toda arrepiada. Muito bonito, mesmo.

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  2. Oh, muito obrigada :) É estranho como às vezes as memórias nos surgem em momentos tão simples como o de fazer um bolo!

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  3. Para mim, as memórias são o que de melhor temos e por vezes elas têm de sair de nós para o mundo, em textos como este. Gostei muito. :)

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  4. :) Ainda bem que retornei à blogosfera para ler este magnifico poste.

    Tenho pena de não ter uma ligação assim com os meus avós.

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  5. Obrigada, Joana :) Eu só tive esta ligação com a minha bisavó. Às vezes tenho pena de não me lembrar de mais detalhes, sabes? Gostava de ter gravado tudo na memória.

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  6. Eu só tenho memórias assim, e não são tão presentes talvez, do meu Tio-Avô, que morreu já eu tinha 32, aos 87 anos. Estas pessoas que eram as fixes, deviam ser eternas, não achas? Andas a escrever muito bem Agnes Maria! Que bonito texto sim senhora, já é praí o terceiro que leio com um remate magnífico! Loving it, dear! ;)

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  7. Acho mesmo, era tão bom que fossem eternas! Havia tantas coisas que eu gostava de perguntar à minha bisavó se tivesse oportunidade, poder falar com ela, aprender as receitas e as costuras, tanto mesmo!
    Oh muito obrigada! :)

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