segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A emigração

Vejo imensos textos e testemunhos de gente que partiu porque teve de ser, porque é a crise, porque em Portugal já não dá e entristece-me que se pinte assim o mundo, de gente que só anda a fugir do mau, que é emigrante saudosista e contrariado... A verdade é que olhando à minha volta vejo que essa não é a realidade da maioria das pessoas que conheço. Claro que elas me dizem que gostariam de poder fazer o mesmo em Portugal se houvesse essa oportunidade, porque é sempre bom ter o sol e a família e a comida ali ao pé de nós, mas a verdade é que elas poderiam ter trabalho no nosso cantinho à beira-mar plantado. Sim, não seria o mesmo, se calhar não iria ser tão entusiasmante, mas seria um trabalho na área pela qual se interessam, teria perspectivas de carreira diferentes mas permitiria viver bem e ir todos os fins de semana a casa dos pais ou beber uma mini na marginal. A maior parte das pessoas que conheço (repito, que eu conheço!) não partiu por necessidade, partiu por ambição, por vontade de conhecer mais, fazer mais, ser mais. Eu própria saí do país porque procurava o que Portugal não me podia dar e não tenho qualquer ressentimento nem mágoa em relação a isso (às vezes bate-me a nostalgia, mas logo passa), até porque sabia as regras do jogo no momento em que defini os meus sonhos. Não sou melhor nem pior por isso, apenas diferente. Acho que é importante separar os vários tipos de emigração e não pôr tudo no mesmo saco de "este país está a expulsar os jovens". Sim, há quem saia porque não tem outra hipótese, e sim, Portugal atravessa momentos complicados, mas há muita gente que sai porque assim o quer, porque procura mais, tem sede de mais. Além disso, lamento que assim seja, mas nem todos os sítios podem oferecer os mesmos sonhos. Se eu quiser ser actriz de Hollywood se calhar o melhor que tenho a fazer é ir para os Estados Unidos. Ou se quiser ser astronauta da NASA. Não há nada de errado em querer alcançar os nossos sonhos e sentirmo-nos realizados com o que fazemos, mas é preciso perceber que isso nem sempre pode acontecer à porta da casa onde vivemos desde sempre. E aos meus amigos que se queixam de não poderem voltar ao país que os viu crescer... vocês são uns privilegiados, pá, o que vos move não é a necessidade mas sim a ambição, e não é preciso pedir desculpa por isso. Só não me venham com histórias, sim?

4 comentários:

  1. Infelizmente acho que não é assim tão linear. Apesar de perceber o que estás a dizer, e acredito que uma grande quantidade de pessoas se encaixe nesse perfil, também conheço muitas pessoas que simplesmente não conseguem nada na área delas por cá, umas optaram por sair, as que ficaram estão sem fazer nada ou dedicados a algo completamente diferente. Dos meus colegas de curso, consigo contar pelos dedos de uma mão aqueles que conseguiram entrar no mercado de trabalho na nossa área, naquilo que ambicionavam quando acabámos o curso.

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  2. Claro que sim, nem quero com isto dizer que as pessoas só saem porque querem, até porque conheço algumas que não tiveram outra alternativa. Não me interpretes mal, não quero pintar uma realidade cor de rosa, apenas falei da maioria dos meus amigos e que saíram do país porque quiseram outras coisas da vida para além daquilo que Portugal que lhes podia oferecer. E quando os ouço falar que não há isto e aquilo no país dá-me vontade de lhes perguntar se eles se eles já olharam bem à volta e perceberam que não têm assim tanto de que se queixar.

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