segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma bica e um bolo de arroz

Estranho esse sentimento de ser emigrante. Sentir a falta dos cheiros e dos sabores, das cores (continuo a defender que o céu aqui tem um azul diferente), do pôr-do-sol sobre o mar, dos cacilheiros no Tejo, dos vendedores de castanhas quando chega o Inverno, dos pastéis de Belém, do Chiado, das bicas, do sol que já aquece na Primavera, da luz, do fado, dos santos populares. Mesmo que algumas dessas coisas me tenham sido algo indiferentes do lado de cá da fronteira, (como as festas em Junho, das quais nunca fui fã), ou algo tão simples como chegar a um café e pedir uma bica e um bolo de arroz.
Não é ser nostálgico, pelo menos não no sentido deprimente da questão. Eu chamar-lhe-ia apenas o reconhecimento daquilo a que antes não dava valor. (Era apenas uma coisa que estava ali, sempre que eu quisesse. Afinal, o Chiado é já ali e o Tejo é só mais um rio.) Também não é ficar preso a um Portugal que se deixa para trás, que isto há muito mundo para viver e as fronteiras já não são o que eram. Talvez seja só aquele sentimento que aparece quando o dia está cinzento e chove para caraças (que é muito mais expressivo do que dizer que chove muito) e se pensa como àquela hora, neste cantinho à beira-mar plantado, o horizonte teria uma faixa cor de rosa como que a prometer mais um dia de sol.

Pode passar muito ou pouco tempo, podem-se trazer na bagagem as maiores e melhores aventuras, e conhecer os lugares mais fantásticos, mas é sempre bom voltar a casa. Mesmo que seja para voltar a partir.

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